Frank Ocean
Hip-Hop/R&B/Rap
http://frankocean.com/
Por: Cleber Facchi

Há pouco mais de uma semana Frank Ocean protagonizou um dos momentos mais importantes da recente história do hip-hop. Ao tornar pública sua homossexualidade, o rapper (que é um dos integrantes do polêmico Odd Future) tocou em uma ferida dolorosa que há tempos cresce dentro do gênero, rompendo de forma sutil e emocionada com parte do preconceito que há mais de três décadas define o estilo e grande parte dos trabalhos relacionados a ele. Propaganda oportunista para uns, anúncio necessário e sincero para outros, em meio à polêmica que o apresentou pela primeira vez a uma série de novos ouvintes, Ocean entrega agora o primeiro registro oficial lançado por uma grande gravadora, Channel, Orange (2012, Def Jam), álbum que involuntariamente, deve se transformar em um novo marco para o hip-hop norte-americano.
Embora o anúncio sobre a sexualidade do rapper aliado ao lançamento do presente álbum soe em alguma medida como uma “estratégia oportunista”, Channel, Orange está muito além de um projeto propagandístico ou que dependa esse artifício. Mesmo próximos, tanto o emocionado texto de Ocean – apresentado em seu Tumblr no dia quatro de julho – como o presente registro caminham por vias diferentes. Enquanto o primeiro se manifesta como uma confissão de liberdade para o jovem rapper, o segundo vai além dos limites do criador, afinal com 17 faixas e um acabamento primoroso, o recente disco estabelece uma série de vínculos que o distanciam da figura de Ocean e o aproximam do ouvinte. Talvez pela grandiosidade do rapper ou pela habilidade de seus produtores, o álbum inevitavelmente se transforma em uma obra de caráter universal, deixando de ser apenas de Ocean.
Channel, Orange assim como What’s Going On de Marvin Gaye, o recente My Beautiful Darkness Twisted Fantasy de Kanye West ou qualquer outro grande registro da música negra norte-americana é um trabalho que cresce justamente por firmar um espaço próprio em relação ao cenário em que se encontra. Embora utilize de referências típicas do R&B convencional que tanto preenchem o trabalho de artistas comerciais (Usher, Justin Bieber) e alternativos (The Weeknd, Drake), o registro parece ir além desse limite. Por vezes, o álbum é um tratado tão grande, que parece ser até maior do que o próprio Frank Ocean, percepção que se amplia quando nos deparamos com o toque jovial da anterior mixtape (lançada em 2011) mediante a seriedade do atual projeto.
Se Chanel, Orange é o resultado final, a conclusão do esforço coletivo entre o rapper e seus colaboradores, então Nostalgia, Ultra hoje aparece como um “simples” trailer. Há pouco mais de um ano, enquanto passeava em meio à samples de Radiohead, Coldplay e MGMT, Ocean lançava um trabalho que parecia competente com sua idade, ressaltando valores típicos de um artista na casa dos 20 anos – mesmo que ainda fosse capaz de discutir uma série de temas além de seus limites, como o casamento no épico American Wedding. No decorrer do novo disco, entretanto, temos um salto na qualidade e no teor das composições do rapper, que por vezes soa mais velho e um profundo conhecedor dos sentimentos, dores e percepções da natureza humana.
Ao se transformar na matéria prima de todo o trabalho, Ocean estabelece uma série de elementos que em alguma medida assustam o espectador. Afinal, é como se em vários momentos do registro o ouvinte encontrasse a si próprio em meio as densas composições montadas pelo rapper, logo, o estranhamento ou o “susto” é inevitável. Seja você homessexual ou hétero, independente de suas escolhas, crenças ou sentimentos há sempre o esforço do norte-americano em ressaltar algum ponto doloroso e compartilhado com qualquer indivíduo, percepção que se intensifica na grandiosidade confessional de Bad Religion (It’s a bad religion/ To be in love with someone/ Who could never love you) ou na saudade que dança no interior de Thinkin Bout You (You know you were my first time, a new feel/ It won’t ever get old, not in my soul, not in my spirit, keep it alive).
Musicalmente o trabalho soa deveras convencional e excessivamente básico em alguns instantes. Até o lançamento da épica Pyramids (com quase 10 minutos de duração), grande parte do registro mantém uma desenvoltura sonora tradicional, com Ocean e os produtores tricotando um som ameno, ora voltado aos lamentos do soul, ora brincando de forma controlada com a quentura do funk que invadiu a década de 1970. A medida parece até uma preparação para as criações volumosas que se acumulam na segunda metade do álbum, proposta que bem define o tom quase ensolarado da “pop” Lost ou o rock climático de Pink Matter, canção em que Ocean e o convidado Andre 3000 (OutKast) passeiam suavemente pelas bases enevoadas de uma guitarra.
Mesmo que o trabalho funcione como uma obra fechada, com todas as canções amarradas dentro de uma mesma proposta – o que deve contribuir para a transformação natural do álbum em um clássico recente -, Channel, Orange cresce individualmente em diversos momentos. Seja pelos anseios brandos e diálogos com a soul music em Thinkin Bout You e Sweet Life (dois dos momentos mais comerciais do álbum), seja pelas letras fortes que em diversos momentos tratam abertamente sobre o uso de drogas (Crack Rock), são vários os momentos em que o rapper cresce pelas particularidades de sua obra.
Curioso perceber que grande parte da beleza de Channel, Orange está na formação de um trabalho que se desprende (quase) por completo de toda e qualquer tendência ou composição voltada ao pop. É como se o rapper fizesse questão de ocultar o R&B comercial que o aproximou de Justin Bieber e Beyoncé ou mesmo da fragilidade que o definiu em músicas como Novacane e There Will Be Tears. Mais curioso ainda é perceber que essa ausência de um som comercial e radiofônico em nenhum momento pesa no interior do disco. Em estreia solo Frank Ocean flutua como um artista sóbrio, por vezes inédito mesmo àqueles que há tempos o acompanham, reinventando cada mínimo espaço do álbum em prol de um trabalho que mesmo sério, prende em virtude da grandiosidade e da comoção que entrecorta as rimas.
Chanel, ORANGE (2012, Def Jam)
Nota: 9.2
Para quem gosta de: The Weeknd, Drake e Tyler, The Creator
Ouça: Bad Religion, Pyramids e Thinkin Bout You

CD do ano.
super estimado
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SENSACIONAL!
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[...] Talvez responsável pelo melhor discos de 2012 – Channel, ORANGE -, Frank Ocean faz de Bad Religion a mais bela composição de sua ainda curta carreira. Extremamente dolorosa, a canção passeia pela solidão, desajustes amorosos e toda uma variedade de percepções e melancolias que crescem a cada nova audição. Honesta, a faixa é uma mínima mostra do que o rapper constrói ao longo do primeiro disco, facilmente um dos discos mais importantes dessa década – não apenas para o Hip-Hop/R&B. ”To be in love with someone/ Who could never love you”. (Resenha) [...]
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[...] Calcular a transformação atual de Frank Ocean tendo como base a mixtape lançada no último ano resulta em exercício inimaginável. De fato, pouco sobreviveu da sutileza caseira que guiava Nostalgia, ULTRA, o primeiro registro solo do (possivelmente) ex-integrante do OFWGKTA. Talvez apenas o sofrimento abordado em Novacane e There Will Be Tears ou os falsetes que se estendiam vez ou outra tenham sobrevivido, no restante, apenas novidade. Quase ausente de samples e construído em cima de uma base instrumental que abre espaço para os vocais cada vez mais cantados de Ocean, o álbum arremessa o ouvinte para uma diversidade de campos. Em sua maioria retratos poéticos temperados pela solidão, seja ela a sentimental (Thinkin Bout You) ou a existencial (Bad Religion). Mas Frank vai além, desenvolvendo composições que vão além do drama pessoal (Pyramids), tratam sobre personagens (Lost), brincam com as metáforas (Forrest Gump) e simplesmente tocam o ouvinte de maneira sincera. Do resgate do R&B aos versos emocionados que revelaram sua homossexualidade, Frank Ocean se manteve como ponto central de uma centena de revoluções que conduziram o mundo da música durante o ano. Se há poucos meses ele rimava em cima de samples de MGMT, Coldplay e Radiohead, hoje Ocean merece ser sampleado. Dividido do princípio ao fim entre os versos que tendem ao Hip-Hop e o sentimentalismo que deságua na Soul Music, o norte-americano entrega ao público um trabalho de importância tão grande quanto outros registros do gênero apresentados há algumas décadas. Entretanto, é preciso notar que Channel, ORANGE está longe de ser o What’s Going On de nossa geração – como vem sendo apontado por uma série de publicações. A estreia de Frank Ocean nada mais é do que um retrato de pura originalidade presente, grandeza criativa e brilho próprio, referências que não a transformam em um clássico temporário ou mero registro passageiro, mas em um disco de grandeza atemporal e de validade incontestável. Se Ocean vai alcançar outro registro tão bom quanto este? Não tenha dúvidas que sim. (Resenha) [...]
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[…] nos três primeiros álbuns, trazendo no propósito épico (em uma medida muito próxima de Frank Ocean) e pequenas experimentações (capazes de invocar Autre Ne Veut) as bases para o que deve orientar […]