Disco: “The Idler Wheel…”, Fiona Apple

Fiona Apple
Alternative/Baroque Pop/Female Vocalists

http://www.fiona-apple.com/

Por: Cleber Facchi

Fiona Apple

O tempo só trouxe benefícios e melhorias à carreira da nova-iorquina Fiona Apple. Artista favorável aos longos espaços entre um lançamento e outro, a musicista vinha desde 2005 sem apresentar um novo registro em estúdio. De fato, embora agradável e dona dos mesmos acertos que em outras épocas alavancaram a carreira da compositora, logo que lançado Extraordinary Machine deixava evidente a presença de uma artista em pleno declínio criativo, como se a força alcançada por ela no começo da década anterior com álbuns como Tidal (1996) e When the Pawn… (1999) não fosse mais a mesma. A cantora precisava de descanso e tempo para conquistar inspiração, e foi em busca disso que ela partiu.

Enquanto no começo de carreira Apple dividia espaço com nomes como Tori Amos e a badalada Alanis Morisette, com o passar dos anos e o surgimento de outras artistas como Feist, Regina Spektor, Florence Welch e tantas outras cantoras relacionadas ao cenário alternativo, ficou mais do que estabelecido o quanto a herança da norte-americana foi a que mais prevaleceu. Sempre protegida por uma aura criativa particular, a musicista passou os últimos sete anos em quase completo silêncio, divulgando vez ou outra uma nova canção de seu último disco, colaborando com algum artista ou se apresentando esporadicamente, tudo isso até que em 2008 começou a registrar pequenos fragmentos do que viria a se transformar no quarto registro oficial de sua carreira.

Com um título tão extenso quanto o disco de 1999, The Idler Wheel Is Wiser than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More than Ropes Will Ever Do (2012, Epic) mostra mais uma vez o quanto o tempo apenas favoreceu a cantora. Hoje aos 34 anos, Fiona deixa mais do que claro o quanto está longe de ser apenas uma personagem marcada pela nostalgia de quem volta os olhos e ouvidos para a década de 1990. Reinventando os experimentos jazzísticos e o pop alternativo que tanto abasteceram os pianos comandados por ela, a cantora faz do novo disco o registro mais maduro e complexo composto por ela em mais de 15 anos de carreira. Dona de uma atuação sóbria e inspirada por um lirismo maduro, Apple usa do presente disco para reviver temas e questionamentos por vezes esquecidos por ela.

Curioso notar, mas em um cenário consumido cada vez mais por artistas similares e interessados em um padrão instrumental partilhado, Apple se assume de forma individual. Mesmo que Jonathan, Valentine ou o single Every Single Night (que muito lembra algo do álbum Metals da canadense Feist) se evidenciem de maneira a compactuar com tudo que ecoa atualmente tanto na música pop como no cenário independente, a instrumentação não linear e a voz exaltada e mutável da cantora garantem novo sentido ao trabalho da artista. Ora imersa em um clima de cabaré moderno, ora construindo a trilha sonora do que parece ser uma comédia romântica de erros, Fiona consegue transformar cada uma das canções do disco em um recorte distinto, como se todas apontassem para uma direção, mas se encontrassem ao final.

Inteiramente confessional, o registro traz nas dez canções que o definem a expressão ímpar da artista, personagem que se transforma voluntariamente na matéria prima para cada uma das faixas que surgem com o passar do disco. Da música de abertura até a angustiante Regret (com os vocais de Fiona surgindo de forma nunca antes vista), tudo no interior da obra parece parece ter um pedaço vivo da artista. Mais do que investir em uma construção lírica primorosa, Apple se deixa consumir por uma instrumentação sempre versátil e não óbvia, percepção que contribui para a percussão diversificada e as harmonias não convencionais evidentes logo na música de abertura da obra.

The Idler Wheel… é um disco que soa como tudo, menos como um registro típico de Fiona Apple. Talvez por isso, passear pelo álbum seja um exercício tão satisfatório, raro e difícil de ser evitado, percepção que se amplia intensamente ao longo das faixas. Da capa, passando pela produção e construção das músicas, cada mínima fração do registro torna evidente a participação da cantora, que parece ter ocupado os últimos sete anos esculpindo todos os mínimos ruídos, notas, letras ou vozes que dão alma ao projeto. Diferente de tantos outros artistas e ícones que que surgiram na mesma época em que a nova-iorquina, Apple utiliza do trabalho para se desvencilhar de velhos acertos e fórmulas prontas, transformando o álbum em não apenas um retorno, mas em uma nova estreia, seja para ela própria ou para todas as novas gerações que talvez desconheçam os anteriores lançamento da artista.

The Idler Wheel… (2012, Epic)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Tori Amos, Feist e St. Vincent
Ouça: Regret e Every Single Night

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11 comentários sobre “Disco: “The Idler Wheel…”, Fiona Apple

  1. No começo estranhei. Achei muito cru. Depois de 3 dias já estava viciado. Ainda acho que “When the Pawn…” e “Extraordinary Machine” são melhores, mas esse chega pertinho em excelência. Por enquanto é o meu 2º disco favorito de 2012. Ainda deixo o da Amy Macdonald, “Life in a Beutiful Light” em 1º. Não por ser melhor, mas porque foi o que mais mexeu comigo.

  2. Bem Lucas disse:

    Gente, vamo fazer uma cotinha e comprar uns Biotônico ou aquela multimistura pra Fiona, ela tá magra de dar dó…O que falta em gordurinhas, sobra em talento, já tinha saudade dessa poesia paranóica, o jeito que ela constrói a própria arte é peculiar e incrível! Vida longa à Fiona Apple e um dieta de engorda pra ela urgente!

  3. Ana Ferreira disse:

    Ouvi hoje e já é o meu disco favorito desse ano. A voz de Fiona é arrebatadora. Todos devem ouvir!

  4. [...] vezes lembrando uma versão menos crua do que Fiona Apple desenvolve durante a extensão do recente The Idler Wheel…, ao lançar o terceiro disco Natasha Khan parece cada vez mais inclinada a se distanciar de velhas [...]

  5. eduardo pepe disse:

    É o meu disco favorito do ano, porém em termos técnicos, acho que empata com “chanel ORANGE” do Frank Ocean. Fiona voltou e se reinventou de forma brilhante e inesperada. Apenas discordo de que em “Extraodinary Machine”, ela aparentou falta inspiração, ele foi um disco com processo conturbado, mas o resultado se mostrou musicalmente muito rico, além de conter a voz arrebatadora de Fiona em grndes performances, principalmente, na faixa-título. Talvez, em termos líricos, ele deixe à deseja, afinal, nesse quesito o novo disco é superior.

  6. [...] de nenhum novo registro em estúdio, a cantora e compositora norte-americana fez do recente The Idler Wheel… não apenas um dos melhores registros de sua carreira e um coerente regresso, mas um dos projetos [...]

  7. [...] Um coração partido e pronto, Fiona Apple deu vida a uma das obras mais amarguradas da música recente. Com o título imenso de The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, o quarto registro em estúdio da compositora nova-iorquina traz uma infinidade de referências conquistadas pela artista em quase duas décadas de atuação. Construído no decorrer de um imenso hiato – Extraordinary Machine, último disco da cantora foi apresentado em 2005 -, o álbum aproxima os vocais amargurados de Fiona com a instrumentação sutil que movimenta as faixas, proporcionando uma sequência de batidas, respiros, gritos e harmonias instáveis que apenas ampliam o toque desesperador da obra. Ponta do iceberg doloroso que Appla deixa flutuar no oceano de lamentos que é o álbum, Every Single Night abre de forma colossal espalhando de forma confessional a dicotomia agridoce que decide os rumos da obra – trabalho que parece acalentar e sufocar o ouvinte durante toda a extensão. Obrigado a quem quer que tenha partido o coração dela. (Resenha) [...]

  8. [...] Um coração partido e pronto, Fiona Apple deu vida a uma das obras mais amarguradas da música recente. Com o título imenso de The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, o quarto registro em estúdio da compositora nova-iorquina traz uma infinidade de referências conquistadas pela artista em quase duas décadas de atuação. Construído no decorrer de um imenso hiato – Extraordinary Machine, último disco da cantora foi apresentado em 2005 -, o álbum aproxima os vocais amargurados de Fiona com a instrumentação sutil que movimenta as faixas, proporcionando uma sequência de batidas, respiros, gritos e harmonias instáveis que apenas ampliam o toque desesperador da obra. Ponta do iceberg doloroso que Appla deixa flutuar no oceano de lamentos que é o álbum, Every Single Night abre de forma colossal espalhando de forma confessional a dicotomia agridoce que decide os rumos da obra – trabalho que parece acalentar e sufocar o ouvinte durante toda a extensão. Obrigado a quem quer que tenha partido o coração dela. (Resenha) [...]

  9. Fernando Rocha disse:

    Eu não era muito ouvinte de cantoras,do tipo solo,não a conhecia até junho do ano passado,quando saiu no jornal uma matéria sobre esse novo disco.Tudo que é bom parece que se esconde,ouvi shadow boxer,slow like honey e gostei muito,inda mais tando numa fase apaixonado.
    Comprei o Idler em dezembro e to curtindo.

  10. [...] Um coração partido e pronto, Fiona Apple deu vida a uma das obras mais amarguradas da música recente. Com o título imenso de The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, o quarto registro em estúdio da compositora nova-iorquina traz uma infinidade de referências conquistadas pela artista em quase duas décadas de atuação. Construído no decorrer de um imenso hiato – Extraordinary Machine, último disco da cantora foi apresentado em 2005 -, o álbum aproxima os vocais amargurados de Fiona com a instrumentação sutil que movimenta as faixas, proporcionando uma sequência de batidas, respiros, gritos e harmonias instáveis que apenas ampliam o toque desesperador da obra. Ponta do iceberg doloroso que Appla deixa flutuar no oceano de lamentos que é o álbum, Every Single Night abre de forma colossal espalhando de forma confessional a dicotomia agridoce que decide os rumos da obra – trabalho que parece acalentar e sufocar o ouvinte durante toda a extensão. Obrigado a quem quer que tenha partido o coração dela. (Resenha) [...]

  11. […] álbuns mais influentes de toda a década de 1980, o disco serve como base para aquilo que Björk, Fiona Apple e tantas outras artistas recentes como Julianna Barwick, Grimes e Florence Welsh vêm desenvolvendo […]

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