Disco: “Kin”, iamamiwhoami

iamamiwhoami
Swedish/Experimental/Electronic
http://www.iamamiwhoami.net/

Por: Cleber Facchi

Parece uma afirmação estranha, mas alguns artistas recentes talvez nem devessem investir na construção de um registro físico para ser lançado no mercado. Melhor exemplo disso está no trabalho da sueca Jonna Lee, artista multimídia responsável pelo experimental iamamiwhoami, um projeto que mistura áudio, vídeo e experiências de interatividade com o internauta dentro de uma única proposta. Tendo a música como objeto central de sua obra, a produtora passou os últimos três anos no desenvolvimento de um tratado que se materializa por completo agora, um registro musicalmente conciso, mas que parece melhor apreciado e bem relacionado dentro dos limites da grande rede e das tramas lá estabelecidas.

Tão logo ao surgimento dos primeiros vídeos da artista em meados de 2010, diversas hipóteses foram levantadas sobre a conceitual e nonsense obra. De um novo trabalho viral promovido pela sempre inventiva Lady Gaga à campanha publicitária audaciosa, muitos tentaram encontrar significados nos registros visuais não óbvios e sempre capazes de indagar o espectador. Afinal, quem não buscou resposta para os números que davam título aos curtos clipes que vez ou outra surgiam no Youtube, registros experimentais como 9.1.13.669321018 ou 15.6.6.9.3.9.14.1.18.21.13.56155?

Se inicialmente a própria assessoria de Jonna Lee negava qualquer participação da artista com os estranhos “virais”, aos poucos a farsa foi revelada, o que de forma alguma impediu que uma dose extra de expectativa fosse aplicada e um novo público em torno do iamamiwhoami fosse criado. Entretanto, assim como fez Lost com os fieis seguidores da série, implantando mistérios para depois solucionar de forma pouco revolucionária e até óbvia, o lançamento de Kin, primeiro registro oficial da artista, parece responder alguns desses “mistérios” de forma excessivamente simplista e sem grandes comoções, o que não impede uma absorção individual de sua obra – principalmente no que tange o caráter musical.

O misto de trip-hop, experimentações eletrônicas que bem lembram a obra da conterrânea Karin Dreijer Andersson (The Knife/Fever Ray) e pequenas doses de um enquadramento pop, tornam o registro muito próximo de outros álbuns que há tempos circulam por aí. Embora previsível, Kin não é um trabalho, ruim, pelo contrário, se relaciona brilhantemente com a frente de artistas movidos pelo toque etéreo. Sonoridade que Grimes, d’Eon e tantos outros personagens do cenário independente têm investido nos últimos meses. Entretanto, ao mesmo tempo em que agrada o álbum frustra pela incapacidade de Lee em promover um registro tão grandioso quanto a expectativa que ela própria criou no decorrer de três anos. Parece até que ele está atrasado em relação a uma série de discos que surgiram nos últimos meses, trabalhos como Qurantine de Laurel Halo ou Ekstasis de Julia Holter.

Talvez quem se deparar com o registro sem ter conhecimento prévio da proposta da artista até possa se relacionar bem com faixas como Idle Talk, Goods e demais composições previamente apresentadas por Lee nestes últimos anos. De fato, o caráter hipnótico da tríade de abertura formada por Sever, Drops e Good Worker faz do registro um trabalho atrativo, mesclando doses de Dream Pop com uma leve carga de temperos eletrônicos, proposta que aos poucos se perde com o passar do disco, mas consegue acertar nos últimos instantes com o fechamento da comercial e velha conhecida Goods.

Inegável é a força do registro que em poucos segundos põe os ouvidos em estado de alerta, como se o ouvinte esperasse por algum ruído tão revelador e instigante quanto o que circulava nos iniciais lançamentos de Jonna Lee. Kin, entretanto, deve ser apreciado com cuidado, afinal, por mais que as doces melodias propostas pela artista encantem tanto quanto o canto de uma sereia há pouca novidade ali. Tudo ecoa como uma versão mais futurística e reclusa do que Kate Bush vem desenvolvendo há mais de três décadas, com a artista ocupando certas brechas para soar inédita e rara, algo que o iamamiwhoami até consegue enganar, mas ainda está longe de ser.

Kin (2012, Independente)

Nota: 7.5
Pasra quem gosta de: Grimes, Fever Ray e Laurel Halo
Ouça: Play

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8 comentários sobre “Disco: “Kin”, iamamiwhoami

  1. Marcos disse:

    O maior ponto fraco dessa resenha, ao meu ver, é que analisaram APENAS as músicas. O que é um defeito imperdoável, já que iamamiwhoami é um projeto multimídia. Músicas e vídeos só fazem sentido se forem analisados em conjunto. Mas como aqui é um site de música…

  2. Flávia Venturini disse:

    Kin serve perfeitamente como um projeto multimídia, mas como disco ele é falho. Sem as imagens o álbum perde sentido e é isso que o texto reforça. Musicalmente falando, Kin e o iamamiwhoami não tem nada demais, acho até esse 7.5 alto demais para um disco tão pequeno.

  3. Marcos disse:

    De fato sem as imagens o álbum é falho. Tanto é que o disco físico contempla um dvd com todos os clipes da era Kin. Mas analisar o disco sem levar em conta toda a mitologia envolvida é um tiro no pé. Desconsideraram nesta resenha o mito da mandrágora e as metáforas sobre a criação musical intensivamente utilizadas pela Jonna Lee. De qualquer forma, achei a nota justa para Kin. A era bounty era muito mais grandiosa e musicalmente interessante.

  4. Larissa disse:

    Comparar iamamiwhoami com Fever Ray: até quando? acho que o projeto já se distanciou tanto das similaridades…

  5. A Jonna deixou um pouco da proposta ‘iamamiwhoami’ pra trás pelo fato do debut do CD físico como iamamiwhoami, é visível que ela quis fazer algo mais comercial sem tentar perder a linha, não tem nenhuma música ao estilo de ‘u-1′, com a intro enorme de ‘;john’, ou com a voz mixada exageradamente que nem ‘t’ não dá pra analisar só as músicas se tratando dela, que alias ficou famosa com os vídeos, outro erro na minha opinião foi comparar muito a era antiga dela com o kin, as historias são totalmente diferentes, na era prelude e no bounty ela tenta explicar quem é a iamamiwhoami, na era kin ela tenta se fechar como iamamiwhoami e tentando matar a antiga Jonna Lee, o lançamento do CD físico tão aguardado dá o empurrão final, no final de Kill quando ela fecha a porta ela declara que finalmente a guerra entre a Jonna e a iamamiwhoami acabou, em Goods o ultimo vídeo, ela dança dentro do kin, a caixa preta.O site oficial da Jonna só saiu do ar quando saiu o vídeo de Kill se não me engano, faz pouco sentido, né?

  6. Black Cherry disse:

    Eu não ía me dar ao trabalho de comentar sobre essa resenha sofrível, mas vamos ressaltar alguns pontos.

    O primeiro ponto é o mais óbvio: “to whom it may concern”, não entendeu? É o slogan dela, “a quem possa interessar”. iamamiwhoami não te obriga a ter expectativas, comparações, e desde o começo do projeto já era de se imaginar que ela seguiria apenas o caminho electronico. Nenhuma música dela pode ser compreendida por completo se você não vê os videos, não acompanha as histórias que ela conta, porque essa é a forma dela de te fazer conhecê-la, de entrar no mundo dela, na arte dela. Os mais sensatos felizmente já perceberam que as músicas de Kin são bem mais evoluídas e trabalhadas do que as de Bounty, embora a síndrome de underground impeça outros de também verem isso.
    Enfim, comparações com Fever Ray também já deram no saco. Tá mais do que na hora de ver Jonna Lee como uma artista indivídual, alheia, sem precisar de taxações pra conseguir criar algum argumento. A forma que ela vende a música dela é essa, temos as novas faixas, temos os nove videos que contam a trajetória da protagonista que ela agora encarna, e ponto, to whom it may concern.

    “Entretanto, ao mesmo tempo em que agrada o álbum frustra pela incapacidade de Lee em promover um registro tão grandioso quanto a expectativa que ela própria criou no decorrer de três anos. ”

    Err… Não. O projeto visa o nascimento dela como uma nova artista, antes folk e agora synth-pop, e depois a criação da banda (bounty), para enfim conhecermos seu filho (kin). Não precisa ver grandiosidade ou expectativa em Kin, porque essa é uma artista que segue as próprias regras, que vende sua arte da forma que lhe convém.

    E quanto à isso, deixa eu cantar uma música recente da própria:
    “We don’t ask for anything, your lives could have been unaffected.”
    ;)

  7. Moh disse:

    Faço minhas as palavras do Black Cherry… amém!

  8. B.Glass disse:

    “Tudo ecoa como uma versão mais futurística e reclusa do que Kate Bush” dexei de lado a review ai, tem duas coisas erradas nessa review, mesmo que cada um tenho um ponto de vista sobre um trabalho, você não falou sobre o album em si, eu ja sabia da parafernalia causada pela mesma com os virais mas me encantei foi com KIn não com os virais, e comparar uma artista novata que exagera da estética eletrônica com uma veterana do art-rock foi de doer, tente ouvir algum disco de kate bush dentre 1980 a 1989 e vera o quão errado isso soou.

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