Disco: “Light Asylum”, Light Asylum

Light Ayslum
Electronic/Synthpop/Darkwave
http://www.facebook.com/pages/LIGHT-ASYLUM/

Por: Fernanda Blammer

Light Asylum

Não há qualquer tipo de trabalho inspirado nas referências criadas ao longo da década de 1980 que outros grupos ou produtores já não tenham mexido ou reaproveitado centenas se não milhares de vezes. Da frente absurda de projetos que tomaram de assalto a industria da música no começo da última década aos pequenos focos de resistência que vez ou outra aparecem pela cena musical, há sempre alguém que se arrisque a mergulhar novamente pelas variadas experiências do período, sejam elas as luzes fluorescentes do Synthpop ou as atmosféricas manifestações do pós punk, elementos que parecem se movimentar em cada mínima fração do primeiro álbum da dupla nova-iorquina Light Asylum.

Vindos de uma bem sucedida série de singles e um poderoso EP lançados no decorrer dos últimos dois anos, o casal composto por Shannon Funchess (voz e percussão) e Bruno Coviello (sintetizadores e bateria eletrônica) faz do primeiro álbum completo uma apurada continuação de tudo que fora montado há mais de três décadas no mundo da música, ora voltando os olhos para a Londres do começo dos anos 80, ora para a Chicago do final do mesmo período. Divididos entre a agressividade sincera das letras construídas em conjunto e doses amenas de teclados robóticos, a dupla consegue alcançar todos os limites e estruturas que afloraram durante o período que tanto os inspira, aproveitando ainda para estabelecer pequenas doses de uma sonoridade própria e quase genuína.

Claramente dividido em duas metades, o homônimo álbum de estreia tem nos primeiros 24 minutos a expansão do lado comercial e consequentemente dançante do projeto, uma espécie de continuação assertiva, porém tímida, do que o duo havia proposto no inteligente In Tension EP lançado no último ano. Das batidas secas que se apoderam da faixa Hour Fortress aos vocais e teclados rasgados que invadem o hit IPC, tudo faz parte da herança deixada pelos artistas mais populares do período, grupos como New Order, Orchestral Manoeuvres in the Dark e (principalmente) Depeche Mode que vez ou outra tentam imprimir marcas bastante expressivas nos sons acizentados que se manifestam nas composições do casal.

Ao mesmo tempo em que esbanjam referências típicas do que fora proposto na música típica dos anos 80, Coviello, principal responsável pela sonoridade que define o trabalho encontra alguns claros reforços no que outros grupos desenvolveram ao longo da última década. Dos sintetizadores ágeis que preenchem Heart of Dust ao toque climático de Sins of the Flesh, não são poucos os momentos em que o trabalho da dupla The Knife se manifesta. Quem também se manifesta é Travis Egedy, responsável pelo Pictureplane e por abençoar o álbum com uma leve carga de sujeira musical que se manifesta em boa parte do acelerado Thee Physical. Além deles é possível encontrar referências vindas uma série de outros nomes do cenário atual, grupos que auxiliam o duo a solidificar a face eletrônica do registro.

O grande acerto da dupla, entretanto, está em utilizar da eletrônica obscura do período apenas como um plano de fundo, um complemento para as letras sorumbáticas que se evidenciam na segunda metade do registro. Mesmo que Sins of the Flesh prepare o ouvinte para esse tipo de sonoridade, é só quando a melancolia densa de Angel Tongue toma formas que finalmente nos encontramos com o verdadeiro reduto de beleza do trabalho, que se aproxima fortemente do pós punk britânico e traz nos vocais graves de Funchess todo o reforço que faltava ao álbum. Visivelmente mais sentimental, o álbum revela uma série de amarguradas composições como Shallow Tears e End of Days, que invertem a lógica do disco e apresentam o real valor dele.

A estreia do Light Asylum faz com que elementos tão gastos e por vezes até banalizados ganhem um toque de novo – ou ao menos sejam melhor explorados pelo casal. Mesmo que alguns prováveis hits surjam protegidos por uma capa tímida e algumas canções segurem demais o freio na hora de mergulhar o álbum em uma sonoridade mais ampla e essencialmente sentimental, desenvencilhar-se ou não se deixar conduzir pelo trabalho é uma tarefa quase impossível. Seja flertando com o pós punk ou brincando com o Synthpop, o duo sabe exatamente onde está pisando, talvez por isso o registro soe tão completo ou consiga agradar o ouvinte das mais distintas maneiras.

Light Asylum (2012, Mexican Summer)

Nota: 7.8
Pata quem gosta de: Pictureplane,
Ouça: Shallow Tears, IPC e Angel Tongue

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3 comentários sobre “Disco: “Light Asylum”, Light Asylum

  1. Cláudio Teixeira disse:

    É sombrio porém dá uma vontade tremenda de dançar. Eu adoro bandas com estas pegadas.

  2. [...] o lançamento do homônimo primeiro álbum de estúdio, a dupla nova-iorquina Ligth Asylum conseguiu dar uma sobrevida aos synthpop e aos ritmos vindos da [...]

  3. Ninguém veio com algo tão consistente no gênero esse ano quanto o Light Asylum. Empurrando o synthpop à pontapés de volta pro lado escuro que consagrou bandas como Skinny Puppy e Nine Inch Nails, a dupla nova-iorquina formada pelo tecladista Bruno Coviello e a vocalista Shannon Funchess debuta com um disco pesado, nervoso e visceral. A química do duo impressiona: Coviello usa poucos elementos pra construir bases sólidas, melódicas e criativas, mas o grande trunfo do Light Asylum é a cantora Shannon Funchess, negona locaça que incorpora uma Grace Jones electro, ora em ataques de fúria à Douglas McCarthy (“IPC”), ora em momentos de pura paixão à Alison Moyet (“Shallow Tears”). Cantora espetacular (forjada no punk e em recentes turnês com o TV On The Radio), Funchess é de uma versatilidade assombrosa. Ela berra, muda de tom a cada minuto, exibe sua voz potente (na ameaçadora “Sins of the Flesh”) e – junto com os sintetizadores disparados tecla por tecla de Coviello – comete a canção mais Yazoo de 2012 (“Angel Tongue”). Programações de bateria que remetem à um Nitzer Ebb primitivo (“End of Days”, “Pope Will Roll”), ritmos eletrônicos prontos para as danceterias (“Hour Fortress”), efeitos atordoantes (repare no zumbido desorientador de “At Will”: a tempestade elétrica é semelhante à devastação que o Klinik causou com “Moving Hands” em 1988) e riffs de teclado memoráveis (“Heart of Dust”), Light Asylum leva de barbada o título de álbum synthpop do ano. Que estréia, meus amigos.

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