Disco: “Metá Metá”, Metá Metá

Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França
Brazilian/Experimental/Acoustic

http://www.myspace.com/jucaramarcal


http://www.myspace.com/thiagosax


http://www.myspace.com/kikodinucci

Por: Cleber Facchi

 

Físicos, pessoais, filosóficos ou até religiosos, nosso cotidiano é tomado de inúmeros e variados encontros, alguns em maior importância, outros visivelmente desnecessários e alguns completamente imperceptíveis. Certos encontros parecem ir além de um mero fator de relevância, são simplesmente necessários, obrigatórios para construção de “algo maior”, algo muitas vezes imensurável no presente e só compreendido no futuro. Um encontro, elemento que delimita toda a obra gerada pela parceria entre os paulistanos Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci, um grandioso, porém singelo cruzamento de distintos gostos pela música em prol de um reduto instrumental e lírico originados de um casual encontro.

Embora sejam tecnicamente distantes as origens musicais de cada um dos três integrantes que dão vida ao peculiar Metá-Metá (2011, Independente), o ponto que delimita o encontro entre as três mentes é único, capaz de cruzar o oceano e estreitar os laços entre a costa da África e a costa do Brasil. Tomado pelo universo afro-religioso brasileiro e todas suas multiplicidades rítmicas, o álbum alcança uma formatação única, algo que se divide entre a meticulosidade minimalista presente nas reverberações instrumentais das faixas e um colossal uso de referências poéticas, linguísticas e sentimentais através dos versos de tais canções.

Longe de qualquer instrumento de percussão, o registro delimita uma ambientação suave, quase minimalista, um cenário instrumental composto apenas pelo violão de Dinucci e os sopros de França. O encontro gerado pela dupla monta um tipo de dualidade musical que lentamente parece travar um peculiar e silencioso duelo, um embate em que ambos os lutadores seguem aplicando seus golpes apenas em momentos de precisão, como se buscassem ao máximo exercer o mínimo. Entretanto, mesmo dentro dessa calmaria sonora e das raras exaltações instrumentais, a percepção é a de que uma vasta orquestra firma suas raízes na abertura da obra para só se desprender nos últimos segundos do trabalho.

Em meio a essa tela musical pintada pela dupla de instrumentistas surge a voz de Marçal, que por conta de seus anteriores trabalhos, também ligados à cultura africana se revela como a representante mais do que acertada para dar movimento e voz ao registro. Sempre de maneira branda, dentro das mesmas suavidades exaltadas pela instrumentação, a paulistana vai derramando seus versos, ora cantados, ora falados, porém, nunca de maneira exaltada. Calma, sua voz parece ecoar em todas as direções, nunca distantes, sempre intimamente próxima do ouvinte, quase como se sussurrasse aos ouvidos.

Mesmo que em sua grandiosidade sejam faixas orientadas de maneira compacta e quase silenciosas que delimitem a beleza de Metá-Metá, em seus momentos de maior exaltação, tanto vocálico quanto instrumental a trinca de integrantes que dá nome ao projeto não poupa esforços em mobilizar um som de pura grandeza e celebração. Situadas nos momentos finais do registro Obá Iná, Obatelá e Ora Iê Iê o parecem desestabilizar toda a lógica primária do trabalho, tragando o registro e o ouvinte para dentro de um universo de pura celebração, sonoridades experimentais e uma formatação musical quase ritualística.

Embora soe como um registro “difícil” em alguns momentos, talvez por seu profundo distanciamento do que há de mais comercial ou daquilo que é desenvolvido dentro dos padrões cerrados da MPB, a força com que o álbum é capaz de absorver o ouvinte quebra qualquer tipo de limite ou ordem que possa fazer dele um projeto de natureza específica e limitada. Singelo e grandioso na mesma medida, o álbum se revela como um resultado não apenas do encontro de três músicos distintos que conseguiram convergir um mesmo interesse, mas também de um quarto personagem, o ouvinte, que parece o tempo todo conduzido e presente dentro das ordens estabelecidas pelo trio.

Metá-Metá (2011, Independente)

Nota: 8.1
Para quem gosta de: Gui Amabis, Anelis Assumpção e Kiko Dinucci
Ouça: Umbigada e Obatelá

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3 comentários sobre “Disco: “Metá Metá”, Metá Metá

  1. [...] no miolo do trabalho. Dos vocais de Criolo (Ribeirão), Luisa Maita (Morte na Bahia) e Juçara Amaral (Jardim Japão), passando pelo sax tenor de Thiago França, a bateria de Marcelo Takara (do [...]

  2. [...] proposta apresentada por Juçara Marçal (voz), Thiago França (sax) e Kiko Dinucci (guitarra) do ano passado até agora. Ainda próximo dos experimentos, do samba e da música africana, em Oya, primeiro exemplar do [...]

  3. [...] Marçal e Thiago França reinventaram a herança africana com o primeiro registro em estúdio do Metá Metá. Autointitulado, o álbum amarra de forma experimental todas as experiências que há anos [...]

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