Disco: “936″, Peaking Lights

Peaking Lights
Lo-Fi/Psychedelic/Dub

Por: Cleber Facchi

Certas bandas ou discos parecem ter um momento exato, um tipo de estalo para que possamos entender em que se baseiam suas orientações, suas temáticas e sua música. Foi assim em 2010 com álbum Before Today do Ariel Pink’s Haunted Graffiti, Person Pitch do Panda Bear em 2007 e mais recentemente com 936 (2011) do casal Peaking Lights. Depois de longas audições e uma “não compreensão” do proposto pela dupla californiana, agora as tonalidades abafadas, pendências ao dub, psicodelia e toda a ambientação entregue no novo álbum do duo parecem ganhar sentido, edificando um labirinto de sons e sensações, além de um dos registros mais interessantes do ano.

Ao contrário de grande parte dos álbuns que se apoiam nas tendências excessivamente densas da música drone, elaborando canções claustrofóbicas, sons nada compactos e uma atmosfera difícil de ser absorvida, dentro do que é proposto pelo casal Aaron Coyes e Indra Dunis tudo flui de maneira tranquila, despojada e deveras chapada. As formas a princípio complexas de serem absorvidas, talvez pelo vasto cruzamento de ritmos, tendências e sons, logo proporcionam uma climatização agradável, da qual é difícil se desvencilhar.

A longa duração das faixas (algumas ultrapassam os oito minutos de duração) acabam garantindo aos californianos tempo e possibilidades diferentes de projetarem seus sons. Marshmellow Yellow a maior canção do disco, por exemplo, abre em meio a uma pequena trama de batidas, ruídos e delays enevoados, logo se preenchendo por pequenas camadas de teclados, direcionando a faixa para uma tonalidade próxima do reggae, mas que se apega aos sintetizadores e quase cai nos planos conceituais da chillwave. Com a entrada dos vocais de Dunis, a faixa toma proporções ainda maiores, motivando um tipo de som quase hipnótico.

Até mesmo dentro da curta duração das faixas Synthy e Hey Sparrow, a dupla consegue misturar todas as inúmeras vertentes de seus sons (e são várias). Enquanto a primeira faixa se configura em um pequeno registro instrumental adornado de reverberações psicodélicas, lembrando muito o trabalho da dupla britânica Hype Williams, a segunda se divide entre um pop colorido e o dub, causando uma espécie de quebra dentro da fluidez experimental do álbum. Mesmo curtas, nas duas canções é possível encontrar uma vasta quantidade de estilos ou preferências musicais, entregando toda a competência do casal.

Embora o vasto agregado de sons e gêneros musicais dentro do disco acabem denotando certo toque de imprecisão ou de descontrole à medida que as canções vão se desenvolvendo, da faixa de abertura ao encerramento do viajado álbum é possível nos guiarmos por uma linha invisível, porém existente e perceptível, que percorre todo o trabalho. Um tipo de elo que aproxima os loopings precisos da faixa Synth no amanhecer do álbum até a canção de encerramento Summertime, com toda sua carga de ruídos e recortes de sons.

A boa receptividade do álbum na imprensa norte-americana – arrancando alguns elogios de sites como Gorilla Vs. Bear e Pitchfork – tem dado merecido destaque ao trabalho do Peaking Lights, se posicionando como um dos trabalhos mais complexos e inovadores do ano. Se difícil é a apreciação do álbum em uma primeira (segunda, terceira) audição, à medida que nos habituamos aos sons instáveis e a atmosfera trabalhada dentro do disco acabamos nos sentindo em casa, como se todas as propostas excêntricas e viajadas que são entregues por Coyes e Dunis fossem as mais naturais possíveis.

936 (2011)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Hype Williams, Toro Y Moi e Washed Out
Ouça: Tiger Eyes (Laid Back)

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16 comentários sobre “Disco: “936″, Peaking Lights

  1. Gilson Brenan disse:

    Musicas viajadas q soh poderiam serem feitas em nosso tempo agora… A faixa Tiger Eyes jah deve estar riscada no meu mp3. Muito boa.

  2. [...] a história de uma garota solitária e o ambiente “vazio” que a cerca. A música faz parte do disco 936, trabalho de estreia do duo e uma das grandes novidades que o mundo da música pode proporcionar ao [...]

  3. [...] Um disco para ser apreciado (ou tragado) do princípio ao fim sem interrupções. Assim é o lisérgico álbum de estreia do casal Indra Dunis e Aaron Coyes de Peaking Lights. Embalados por uma nostalgia semi-hippie que transpassa os campos da música psicodélica, dub e algumas pitadas de drone, o duo atravessa décadas e transpassa distintos terrenos musicais em busca de uma musicalidade acolhedora e quase bucólica em alguns momentos. Lo-Fi por questões técnicas (e não por uma escolha da dupla), o disco apresenta desde faixas mais curtas e amarradas em uma doce estrutura melancólica (Key Sparrow) até canções mais extensas que de forma ou outra acabam aproximando a dupla de uma sonoridade mais eletrônica e variada (Marshmellow Yellow), transformando 936 em um dos trabalhos mais doces e completos que o ano de 2011 pode proporcionar. Deixe a correria do mundo para lá e sejam bem vindos ao espaço acolhedor que Dunis e Coyes prepararam para você. (Resenha) [...]

  4. [...] Um disco para ser apreciado (ou tragado) do princípio ao fim sem interrupções. Assim é o lisérgico álbum de estreia do casal Indra Dunis e Aaron Coyes de Peaking Lights. Embalados por uma nostalgia semi-hippie que transpassa os campos da música psicodélica, dub e algumas pitadas de drone, o duo atravessa décadas e transpassa distintos terrenos musicais em busca de uma musicalidade acolhedora e quase bucólica em alguns momentos. Lo-Fi por questões técnicas (e não por uma escolha da dupla), o disco apresenta desde faixas mais curtas e amarradas em uma doce estrutura melancólica (Key Sparrow) até canções mais extensas que de forma ou outra acabam aproximando a dupla de uma sonoridade mais eletrônica e variada (Marshmellow Yellow), transformando 936 em um dos trabalhos mais doces e completos que o ano de 2011 pode proporcionar. Deixe a correria do mundo para lá e sejam bem vindos ao espaço acolhedor que Dunis e Coyes prepararam para você. (Resenha) [...]

  5. [...] Um disco para ser apreciado (ou tragado) do princípio ao fim sem interrupções. Assim é o lisérgico álbum de estreia do casal Indra Dunis e Aaron Coyes de Peaking Lights. Embalados por uma nostalgia semi-hippie que transpassa os campos da música psicodélica, dub e algumas pitadas de drone, o duo atravessa décadas e transpassa distintos terrenos musicais em busca de uma musicalidade acolhedora e quase bucólica em alguns momentos. Lo-Fi por questões técnicas (e não por uma escolha da dupla), o disco apresenta desde faixas mais curtas e amarradas em uma doce estrutura melancólica (Key Sparrow) até canções mais extensas que de forma ou outra acabam aproximando a dupla de uma sonoridade mais eletrônica e variada (Marshmellow Yellow), transformando 936 em um dos trabalhos mais doces e completos que o ano de 2011 pode proporcionar. Deixe a correria do mundo para lá e sejam bem vindos ao espaço acolhedor que Dunis e Coyes prepararam para você. (Resenha) [...]

  6. [...] experimentações rudimentares e mágicas da dupla Peaking Lights iniciadas no álbum 936 parecem não ter limites. Depois de abrirem as portas para um mundo fantástico de composições [...]

  7. [...] de contraponto europeu ao que o casal californiano Peaking Lights realizou com o álbum 936 no último ano, Black Is Beautiful (2012, Hyperdub) proclama a criação de um verdadeiro labirinto de sensações [...]

  8. [...] que a dupla sopra em Lo-Hi, música que condensa todos os elementos do último álbum – 936 – de forma surpreendentemente leve e descompromissada. Sobra até para o filho do casal fazer uma [...]

  9. [...] psicodélico, ora eletrônico, mas sempre suave. A dupla também é responsável pelo ótimo 936, um dos grandes discos do último ano. Agora é só torcer para que o mesmo acerto se [...]

  10. [...] que bem caracterizam o trabalho da banda, dona de um dos mais belos discos do último ano, 936. Esta deve ser a última parte das mixtapes antes da chegada do disco, que será apresentado [...]

  11. [...] a também surpreendente Lo-Hi. Agendado para o dia 18 de junho, o álbum será o sucessor do disco 936, trabalho de estreia da banda e um dos mais importantes discos de 2011. Enquanto o trabalho não [...]

  12. [...] pela calmaria, 936 veio como um doce retrato de um casal em plena descoberta. Enquanto Coyes brincava com os sons, [...]

  13. [...] uma série de sinais de que teríamos um registro ainda mais lisérgico e suave do que o antecessor 936. Foi necessário apenas que a dupla apresentasse ao público o primeiro grande single do disco, [...]

  14. [...] garantido em nossa lista de melhores discos de 2012, Lucifer marca a transformação da dupla Peaking Lights que se afasta da produção de um álbum de nuances bem definidas para incorporar um som denso e [...]

  15. [...] uma versão acinzentada do que apresenta o casal Peaking Light no dubísmo psicodélico do álbum 936 (2011), Stott sobrepõe sons de forma a sufocar o ouvinte em uma onda instrumental de natureza [...]

  16. [...] Dub é pop. Longe de repetir os mesmos acertos que deram vida ao excelente 936, Indra Dunis e Aaron Coyes fizeram de Lucifer a morada de sons angelicais que praticamente abriram [...]

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