Pequenos Clássicos Modernos

Céu
Brazilian/Female Vocalists/Alternative
http://www.myspace.com/ceuambulante

Por: Cleber Facchi

Em meio a tantos nomes da “nova MPB” que explodiram a partir dos anos 2000 (muitos deles nem um pouco interessantes), a busca pela afirmação destes artistas ocorreu de maneira mais fácil para alguns e menos para outros. Agraciada desde seu trabalho de estreia, Maria do Céu Whitaker Poças, a Céu parecia não interessada em trabalhar com a mesma temática em seu segundo trabalho de estúdio, e é justamente por dar forma a um álbum muito mais maduro e difícil, que a jovem fomentou a nada mais do que uma obra prima da música brasileira contemporânea, o esplêndido Vagarosa (2009).

Enquanto grande parte das vozes femininas do momento pareciam bem mais interessadas nas mesmas fórmulas propostas por Elis Regina há décadas atrás, a jovem partiu para a criação de um som que mesclava desde o reggae e dub, passeando por elementos da cultura africana, para só então se abraçar ao jazz e a soul music, um caminho completamente oposto de tudo que fora explorado até então.

Ao mesmo tempo em que se apega a diversos tipos de sons estrangeiros, Céu segue firme dentro da música brasileira, encontrando no samba seu principal reduto. O apego aos sons nacionais fica expresso logo em Sobre O Amor E Seu Trabalho Silencioso, um sambinha leve e que abre com perfeição seu novo trabalho. Entretanto é ao se perder dentro das influências externas, que a cantora nos mostra todo seu potencial.

Se entregando ao jazz, a soul music e ao experimentalismo em Nascente a jovem não apenas permite que sua voz excursione por caminho poucas vezes pisado por ela (ou na música brasileira em si), como autoriza que a sonoridade do álbum desenvolva tonalidades pouco provadas e que realçam com propriedade toda a beleza do registro. Da música africana se encontrando com o R&B vem Cordão Da Insônia, outra beldade instrumental em que Céu brinca com seus vocais de maneira fechada e levemente excêntrica.

Embora assuma grande parte da autoria das canções de maneira individual, a presença de importantes nomes do cenário musical brasileiro é o que traz destaque ao álbum. Há desde Thalma de Freitas (Bubuia), Luiz Melodia (Vira Lata), Los Sebozos Postizos (Rosa Menina Rosa) e Fernando Catatau (Espaçonave), além de nomes como Siba e Beto Villares ajudando nas letras.

Na época do lançamento o álbum acabou figurando como unanimidade, afinal, a qualidade com que o disco se desenvolve, explorando inúmeras possibilidades de sons é um presente aos ouvidos. A revista Rolling Stone Brasil elegeria o trabalho como o melhor de 2009, sem contar nas diversas publicações internacionais que dariam grande destaque ao disco. A forma chapada, porém concisa do álbum faz dele um produto único, dotado de uma beleza própria e que deve ser apreciado assim, de maneira calma e vagarosa.


Vagarosa (2009)

Nota: 9.3
Para quem gosta de: Tulipa Ruiz, Guizado e Cidadão Instigado
Ouça: Nascente

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3 comentários sobre “Pequenos Clássicos Modernos

  1. [...] Suave e afundado em doces nuvens sonoras carregadas de referências regueiras, Vagarosa não é apenas o melhor retrato da nova safra da MPB, como solidifica em seu interior um denso apanhado de emanações profundamente viajadas. Enquanto a voz hipnótica de Céu passeia calmamente pelo álbum, batidas amenas, amontoados de guitarras levemente distorcidas e harmonias brandas de teclados vão se entrelaçando, produzindo um verdadeiro achado da lisergia nacional. Em meio a uma nuvem de fumaça, a paulistana e os parceiros que a acompanham fazem nascer clássicos recentes da música brasileira, pérolas como Espaçonave (com participação de Fernando Catatau), Cangote e a experimental Nascente, que abandona o tom pacato e tomado pelo Dub para se transformar em um jazz maroto e flutuante. Da voz arrastada da cantora ao composto de melodias esvoaçantes, todos os espaços do registro contam com um doce aroma canábico, como se o disco todo flutuasse em uma vistosa marofa recém soprada. (Resenha) [...]

  2. [...] – Céu resolveu se afastar levemente das experiências chapadas do disco anterior, o doce Vagarosa. Entretanto, a aproximação com a música brega e o rock dos anos 1970 não impedem que em algumas [...]

  3. [...] de brincar com a sutileza do dub/reggae em Vagarosa (2009), Céu resolveu ir além, encontrando em Caravana Sereia Bloom uma obra ainda maior do que a [...]

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